quinta-feira, 31 de maio de 2012

18 de maio



Quanto tempo leva até que essa noite
imensa em mim fique pronta?

Quantas luas cruzarão o céu
até que essa dor em mim amanheça?

Quantos banhos, quantos objetos perdidos,
quantos comprimidos serão até que se apague de vez
em mim a nódoa daquele grito?

Quantas quedas, quantos pares de sapato levarei
até que todo o sobressalto do mundo
em mim me repouse?

Enquanto isso,
No acaso das dobras
Na delicadeza dos desvios
No risco que me coincide
No mapa das poças e das rachaduras
No poema sutil que a folha em si recita
Minha mãe me visita.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

A história da noite



Deito-me, exausto. Cerro os olhos feito guilhotina, mas nada é escuro e silêncio. Há algo errado nesse desvario de imagens invasoras, fotografias reticentes pesando sob meu par de coturnas pálpebras.

Com o spray negro da tristeza cobrindo-me a lâmpada, deixo agora meus olhos bem abertos e livres para nada enxergar senão a catarse de meu cálice de angústias notívagas. Alguma coisa no torpor instável da insônia desloca o raciocínio e o atira para fora de mim em mim, em um desespero ilógico que, frustrada batida, vaga e bate tanto que não bate bem. E me mói os ossos.

Há um furo, bem se vê inutilmente, uma falha implausível, uma inconsitência narrativa nesse perverso roteiro de delírio ampliado, por onde escorrem pesadelos liquefeitos em lágrimas minerais. Escorro-me pelo travesseiro, é isso, travessia do sofrimento entre agitados lençóis, dissolvendo a história confusa em que me desencontro, o insolúvel da morte, a tal coisa que não bate surrando lá fora as vidraças de minha noite.

Na escrivaninha descontínua do sonho grotesco desgarro-me no texto em que tenho tentado a minha inscrição no mundo por um atalho de livre associação, mas nada. Tudo é abismo. Perco-me no que me desagua vertical em pó de sonho. Mas estou seguro na queda. Disso eu sei. Só e simplesmente isso. E que há de tudo nessa estrada, estada estranha, menos sono.  

Nela prossigo, aguardando a fenda insone, a nesga de luz redendora explodir-me na cortina: parto, pacto de claridade sã que me resgatará vivo e melhor enfim, na manhã.

terça-feira, 29 de maio de 2012

O menino sem ainda




O teu desaparecimento não é a minha morte, mas de algum modo é o contrário do meu nascimento. Escolho uma estrela, uma canção, um objeto qualquer, uma hóstia. Reúno neles as melhores lembranças tuas, mãe, mas tudo o que sei e sinto não se ajunta ali. Caem, derramam-se os significados todos, que tão bem sob o teu signo ficam, que tão bem te deixam de pé.

"Deixa ver suas unhas, deixa expremer esse cravo, fiz arroz-doce. Amanhã a missa é cedo e o padre é bravo."

Mãe, agora é tarde?

Inconsolável



Os ipês explodem, rosas, pelas calçadas ao mais leve movimento meu. O cão traz de volta o papel amassado que incontrolado atirei na parede. O azul invernal do céu sem nuvens entrecruza-se de maritacas eufóricas de maio. Na fila do caixa da livraria, uma menina me confunde com o pai e segura confiante a minha mão. Não. Nesses dias, nada pode salvar o meu mundo da miséria mais triste, da miséria sem remédio, sem retorno, sem mãe.

domingo, 27 de maio de 2012

O fio


Tão pouco tempo e já tão cansado estou. Cansado de ser domingo e você não estar aqui conosco. Cansado de estar aleijado desse meu pedaço imenso que desceu ao chão. Cansado de escrever sobre o que você não lerá, de tratar comigo do seu monumental silêncio. Cansado de olhar o espelho da sua ausência e não poder atravessá-lo. Cansado de sentir saudade eterna de seu amor incondicional.

Preciso urgentemente voltar a escrever sobre o que ficou, mãe. Sobre isso que é seu e que me une ao mundo, a parte sua que me liga à vida, a sua herança que me deixa fincado no Planeta com um sentido claro à minha frente: meus filhos.

Daqui em diante, mãe, exatamente como você fez um dia, que me escapou compreender, cuidar de amá-los incondicionalmente será o meu modo de amar você.




O fundo do fundo



Depois do martírio, a chaga fria, o rasgo insistente que ainda me devora, a saudade mais funda, vertiginosa, o apelo inconsolável da orfandande.

Essa dor abissal é agora tudo que enxergo e sinto, mas eu sei, a febre passará. Não poderá ser isso o que fica, o que quer que seja também findará.

E deixará em seu lugar a alegria leve e redentora de sua lembrança, a esperança sanguínea dos que creem em sua presença na luz confortadora de sua obra em nosso entendimento, em nosso andamento, em nossa letra, em nossa música.

Assim, etelvinamente seguiremos em paz, apascentando o seu rebanho, banhado na fé que você tão bem nos ensinou. Temos o sino, a torre e o horizonte ao fundo e, no mais fundo, você, que agora tem por nós.


sábado, 26 de maio de 2012

O pesar dos pesares





O luto é a luta entre a vida e a morte.
O luto é um corte por onde nos vaza a luz.

O luto é a cruz fincada no peito.
O luto é um mal jeito que nos dá na alma.

O luto é a palma da dor na face.
O luto é o desenlace de um desespero.

O luto é destempero da dor.
O luto é a flor negra ao fechar da janela.

O luto é a cela escura mais fria.
O luto é uma pia inflamada de sangue.

O luto é o exangue da noite.
O luto é açoite covarde do formol.

É uma manhã abandonada pelo sol.



quinta-feira, 24 de maio de 2012

Mãe,



O tanto que aprendemos de sonhar, o tanto que aprendemos de acreditar e ser, o tanto que aprendemos de amar, o tanto que aprendemos de aprender...

Mãe, nossa eterna professora de viver, já que agora a sua morada definitiva é o nosso coração, saiba de cor, então: nós a amamos muito e a teremos para sempre aqui.

Porque somos, mãe, os seus eternos meninos e meninas etelvinas, recordando você nas coisas de todo dia: um bordado no pano de prato da pia, um doce bom, uma mesa farta, um crochê branco e marrom, uma anedota de família, um tabuleiro de pães de queijo, o leite na vasilha, uma rosa no pneu, um gesto nosso no seu.

Mas, sobretudo, mãe, nós nos lembraremos ainda mais de você quando, enfim, enxergarmos e reconhecermos em nós a sua imensa vontade de viver, a sua paixão contagiante pela vida e pelo outro, a sua fé no mundo, no futuro, a sua abnegação e entrega ao nosso pai, a sua devoção ao Pai, o seu incondicional-incomensurável amor aos seus nove filhos, seus novilhos.

Mãe, precisamos dizer, repetir e repetir alto, infinitas vezes, como em uma novena, que a sua simplicidade é a nossa nobreza, que o seu coração é o nosso avesso, que o seu sorriso é o nosso preço e que o seu orgulho de nós é a nossa maior riqueza.

Mãe, Nossa Rainha Senhora, queremos cobri-la agora do manto mais humilde e mais nobre, feito do mesmo tecido de que é feito o nosso amor infinito. E vamos bordar nesse manto, mãe, cada um de nossos nomes com uma só linha de ouro, contínua, forte, caligrafia de guerreiros amorosos que somos por sua causa.

Receba também, mãezinha, a nossa coroa mais bela e rica, feita de gloriosas recordações e toda ornamentada de brilhantes, majestosas lágrimas de saudades, cintilantes como a estrela altíssima em que você mora agora, mãe, dentro de cada um de nós.      

Mãe, você agora é a medalha milagrosa colada em nosso peito, nosso jeito, nosso cristal, nossa bandeira, nosso arsenal. Que Deus nos abençoe a todos, mãe, juntos, alegres e confiantes, bem ao seu feitio, tudo como você plantou em nós, como você deixou em nós.

Com a vossa benção, nossa Mãe, Nossa Senhora Santinha. Ficai em paz, o Senhor é conVosco, e por Ele sabemos que ficareis sempre conosco.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Coração menino órfão



Órfão dos bordados
Das rendas e das rosas
Órfão dos panos de prato
Das receitas e de nossas prosas.

Órfão da medalha
Da oração fervorosa a Maria
Órfão do cravo e do ramo de alecrim
No doce que ela fez pra mim.

Órfão do  feijão
E da benção sobre a nossa mesa
Órfão da fé, da sua vontade
Órfão dessa delicadeza.

Órfão do seu humor único
Do telefonema diário
Do encontro e depois da espera
Órfão do que eu era.

Órfão da sua voz
Da sua palavra certa
Dos provérbios plenos de sabedoria
Órfão da sua alegria.

Órfão de sentido
De farinha de mandioca e de milho
Órfão de paçoca de carne de panela
Orfão dela.

Órfão de ser filho.