quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Inesperada

(História de avô)

Um dia, seu Waldomiro amanheceu louco de vontade de comer bacalhau. Acordou a mulher ainda no meio da noite e disse à ela, baixinho, tocando levemente em seu ombro:

- Mulher, mulher: bacalhau. Hoje é dia de ba-ca-lhau!, mulher.

Um tempo depois, ela levantou-se da cama, alegrinha, suspirou um amassado arfar, ajeitou a alça da camisola e, enquanto tomava a direção da cozinha, para colocar a posta do peixe de molho para dessalgar na água, escutou o marido sonolento completar o pedido com um importante detalhe:

- Abobrinha! É bacalhau com abobrinha!

Depois disso, seu Waldomiro virou-se para o lado e pegou logo no sono. Foi um sono bom, e justo. Sonhou com um ensopado fumegante de bacalhau à lauta, sem as tradicionais batatas em rodelas, mas acompanhado fartamente de fatias grossas de abobrinha, temperado com muita cebola, salsa e cebolinha. Ah!, e um bocadinho de coentro e vinho branco de garrafão também. Não muito, que é para não passar, detalhava ele, ainda dentro do sonho culinário.

Quando deu onze horas daquela manhã em que a mulher acordara feliz, especialmente feliz, o sonho de seu Waldo estava quase pronto no fogão de lenha, espargindo pelo casebre e pelo domingo o aroma amoroso dos mais olorosos cozidos.

Foi quando o cumpadre Waldir surgiu gritando lá na porteira, com mulher e quatro filhas, rotundamente simpáticas, saídos da missa diretamente para uma redonda e inoportuna visita.

Seu Waldomiro se desesperou. Então o seu tão bem sonhado acepipe, preparado com ardor e luxúria por toda a noite iria parar assim, no ventre esfomeado de desavisadas visitas? Aquilo não podia ser. Aquilo não estava certo...

Mais que depressa, tomado por apoucada generosidade, ordenou que a mulher separasse e reservasse todo o bacalhau que fervia garboso na panela de ferro, protagonista entre os legumes. Pronto: o almoço seria tão somente um ensopado de abobrinha!

Ao final do refestelo, o cumpadre visitante se estirou na cadeira, coçou a barriga e ainda lambia os beiços quando se dirigiu ao resignado anfitrião:

- Olha, cumpadre, de duas uma: ou você me dá um punhado de semente dessa abóbora, ou me conta direitinho que tempero-coisa-de-louco, foi esse que a sua mulher botou nesse prato, viu?